A forma como os saberes ancestrais e as ciências indígenas podem transformar as práticas de pesquisa, saúde e comunicação científica no Brasil e a urgência de ampliar a presença Indígena na produção, circulação e divulgação do conhecimento científico, estiveram na pauta do 16º Encontro Virtual de Divulgação Científica (EVDC) da Fiocruz. Em parceria com o Fórum de Divulgação Científica da Fiocruz, o encontro integrou as atividades promovidas pela Fiocruz dentro da programação do Abril Indígena.
Esta edição foi mediada por Diádiney Helena de Almeida e contou com a participação de Ana Lucia de Moura Pontes e Raquel Paiva Dias Scopel. As pesquisadoras reforçaram que é mais do que hora de os Povos Indígenas passarem a ser referenciados como autores e produtores de conhecimento, e não apenas como objetos de pesquisa e fontes de informação.
Diádiney Helena de Almeida, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), primeira pesquisadora Indígena concursada da instituição, afirmou que “os desafios do diálogo entre as ciências Indígenas e a ciência moderna representam um convite à reflexão sobre o acesso e as condições de formação de cientistas Indígenas em um contexto marcado pelo racismo”. Segundo a pesquisadora, é preciso “reconhecer as barreiras ainda presentes na produção científica e discutir caminhos para ampliar o protagonismo desses sujeitos nos espaços de pesquisa e de construção do conhecimento”.
Diádiney pontuou que os Povos Indígenas historicamente foram tratados mais como objetos de pesquisa do que como sujeitos e autores ou autoras de suas próprias investigações. Para ela, é necessário refletir criticamente sobre as condições de comunicação e divulgação dos resultados dessas pesquisas a fim de compreender quem produz conhecimento, para quem ele é comunicado e de que forma essas narrativas são construídas.
“Não é só disseminação de informação, é uma prática de disputa e política. Ao hierarquizar saberes, o conhecimento científico ocidental deslegitimou os conhecimentos Indígenas. É preciso pensar o protagonismo de forma ampla a fim de combater o racismo, os silenciamentos de autorias Indígenas e garantir que as pesquisas estejam comprometidas com o bem viver dos Povos Indígenas”, reforçou.
A valorização das ciências e medicinas indígenas a ampliação da presença de pesquisadores indígenas nos espaços acadêmicos e a necessidade de transformar a comunicação científica foram destacadas por Ana Lúcia Pontes, pesquisadora da Ensp. Coordenadora do Centro de Operações da Emergência Yanomami, entre janeiro e julho de 2023, Ana Lúcia falou sobre os desafios da produção, disseminação e comunicação da informação na agenda de saúde dos Povos Indígenas. Ela destacou que as ações afirmativas na graduação e na pós-graduação específica para os povos Indígenas devem ser fortalecidas com estratégias na divulgação, ampliação do acesso aos editais e fortalecimento da comunicação. “Temos que reconhecer também a falta de representatividade indígena nas instituições acadêmicas”, afirmou.
Tomando como base os filmes produzidos no âmbito da pesquisa que está desenvolvendo sobre saúde, sustentabilidade e controle social, focada nas experiências de participação social, a pesquisadora Raquel Scopel, que atua no escritório da Fiocruz Mato Grosso do Sul, destacou a importância do cinema no contexto da saúde dos Povos Indígenas. “O cinema é luta, seja para denunciar os processos que afetam a vida, a saúde e os direitos desses povos, seja para denunciar os conflitos territoriais. Mas, esse não é o único sentido da produção do cinema indígena. Além de ser produzido para fora, ele também tem o objetivo de falar para quem está dentro das aldeias”, ressaltou.