O poema “Guerra Civil”, de Miguel Torga, integra o livro Diário XII, publicado em 1983, e aborda, de forma simbólica, a experiência do conflito como uma fratura íntima e coletiva, sendo a guerra não apenas um confronto armado entre lados opostos, mas como uma questão que atravessa o próprio sujeito.
Ao trazer a guerra para o campo íntimo, o poema permanece profundamente atual em 2026, quando o mundo ainda convive com conflitos armados, crises humanitárias e polarizações intensas. A “guerra civil” evocada por Torga pode ser percebida também nas divisões internas que fragmentam sociedades e indivíduos, alimentadas por disputas ideológicas, desinformação e desigualdades persistentes. Nesse contexto, sua poesia traz ainda um alerta mostrando que, mais do que territórios, estão em disputa e em risco os próprios vínculos humanos, éticos, afetivos e políticos, exigindo uma reflexão urgente sobre as formas de reconstrução do comum em meio à violência.
Miguel Torga, um pseudônimo para Adolfo Correia Rocha, foi um dos maiores escritores portugueses do século XX. Médico de formação, destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios, integrando a segunda fase do Modernismo. Construiu uma obra marcada pela reflexão ética, pelo humanismo, pela observação crítica da condição humana e suas relações com a natureza, a solidão e a morte, e pela resistência à ditadura. Foi, por diversas vezes, candidato ao Prêmio Nobel da Literatura e recebeu o prestigiado Prêmio Camões em 1989.