Às vésperas do Dia dos Povos Indígenas, uma experiência inédita na Amazônia brasileira lança luz sobre um dos principais desafios da educação no país: transformar acesso em permanência e formação qualificada. Pela primeira vez, a Fiocruz ofertou uma turma de mestrado em Saúde Coletiva exclusiva para indígenas do Alto Solimões, sediada em Tabatinga, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, região estratégica do ponto de vista geopolítico e sanitário. A iniciativa, conduzida pelo Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), foi composta por 15 alunos de quatro municípios do Alto Solimões, pertencentes às etnias Marubo, Tikuna, Kokama e Kaixana. O processo seletivo, também inovador, rompeu com critérios exclusivamente acadêmicos e incorporou trajetórias de vida, vínculos comunitários e atuação em movimentos indígenas para formar a turma especial estendida do Programa de Pós-Graduação em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia, coordenada pela pesquisadora sênior da Fiocruz Amazônia, a médica sanitarista Luiza Garnelo.
A turma estendida surgiu a partir de uma análise da realidade brasileira, que indicou que cotas e incentivos para indígenas não eram suficientes, evidenciando a necessidade de descentralizar o curso e ancorá-lo no território. Para Luiza, o resultado desse movimento é uma turma multidisciplinar, composta por profissionais com formações que vão desde a enfermagem até a antropologia, sempre direcionados à saúde coletiva com foco no território.
Ofertado em regime modular e presencial em Tabatinga, no Amazonas, o curso manteve o rigor do Programa de Pós-Graduação em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (PPGVIDA), mas adaptou conteúdos e metodologias para incluir a saúde indígena como eixo estruturante. Também foram incorporados apoios pedagógicos específicos, como acompanhamento em língua portuguesa e matemática, além de capacitação para uso de bases de dados e ferramentas acadêmicas. “Não se tratou de flexibilizar a qualidade, mas de criar condições reais para que esses estudantes se apropriassem do ambiente acadêmico”, explicou a coordenadora da turma.
Iniciada em 2023, a primeira turma de mestrado fora da sede do ILMD/Fiocruz Amazônia é também um marco da interiorização das ações afirmativas da pós-graduação da Fiocruz, que se tornou possível a partir de parcerias e do apoio fundamental das vice-presidências de Educação, Informação e Comunicação (VPEIC/Fiocruz) e de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e da Secretaria de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai/MS). O PPGVIDA é coordenado pela pesquisadora Ani Matsuura, e a turma especial estendida está sob a responsabilidade de Luiza Garnelo.
A vice-presidente adjunta de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, Eduarda Cesse, destacou o processo de negociação e adaptação junto à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para a realização desta turma, afirmando que a instituição tem expertise em políticas inclusivas e está em constante aprendizado neste sentido. "A realização da turma especial elevou o PPGVIDA a uma categoria diferenciada, saindo dos padrões, o que tornou possível fortalecer práticas primordiais à Fundação. Isso é política inclusiva e isso a Fiocruz sabe fazer!", apontou ela, orgulhosa da turma especial.
Permanência, apoio e transformação social
Os resultados já começaram a aparecer. Com defesas previstas até junho de 2026, a maioria dos estudantes já concluiu ou está finalizando seus trabalhos. Paralelamente a isso, observa-se um aumento da empregabilidade dos egressos, muitos dos quais passaram a atuar em suas áreas de formação ou como sanitaristas, ampliando a capacidade técnica nos próprios territórios.
Temas como logística em distritos sanitários indígenas, alimentação tradicional em escolas e itinerários terapêuticos no Vale do Javari evidenciam uma produção científica diretamente conectada às vivências dos próprios territórios. “Os projetos foram construídos de forma negociada, buscando responder a problemas concretos das comunidades de origem dos estudantes, refletindo o compromisso dessa iniciativa”, destacou Luiza, afirmando que tal abordagem dialoga ainda com outras frentes da Fiocruz voltadas à saúde indígena, que articulam pesquisa, formação e políticas públicas.
"Ao não ocuparem uma posição de minoria étnica, os estudantes relataram maior conforto emocional, potencializando as relações de solidariedade e aprendizado interpares, o que amenizou o estresse que habitualmente incide sobre os estudantes de pós-graduação", contou Luiza, destacando ainda que a infraestrutura também foi decisiva: bolsas de estudo, equipamentos e acesso à internet, além de suporte institucional contínuo.
Vivências e aprendizados para o futuro das ações afirmativas
A realização desta turma estendida de mestrado trouxe importantes aprendizados, experiências e evidenciou desafios estruturais, entre eles, a necessidade de financiamento adicional, maior tempo para maturação das pesquisas — especialmente aquelas realizadas em áreas remotas — e estratégias de devolutiva dos resultados às comunidades. “Formar mestres indígenas implica reconhecer tempos, modos de produzir conhecimento e compromissos que vão além da academia”, afirmou a coordenadora do curso.
Mais do que uma experiência localizada, a turma de Tabatinga fomenta o debate institucional sobre ações afirmativas. Ao articular acesso, permanência e pertinência social da formação, a iniciativa aponta caminhos para uma política mais robusta e efetiva, que esteja alinhada às demandas dos povos indígenas e aos desafios do Sistema Único de Saúde (SUS) em territórios historicamente invisibilizados.
Cabe destacar que essa experiência caminha em articulação com pesquisas sobre a política de ações afirmativas no ensino superior (graduação e pós-graduação), cujos resultados estão sendo analisados e serão, em breve, objeto de publicação de artigos e livros.