Descrição: Nascer e parir no Brasil tem se tornado um tema cada vez mais debatido e estudado, como consequência das violências sofridas pelas mulheres e bebês nesse contexto. O modelo obstétrico implementado no país é norteado por diretrizes biomédicas que produzem altas taxas de intervenção durante o pré-natal, trabalho de parto, parto, resguardo e maternidade. Esse curso foi concebido para (re)pensar a problemática à luz do resgate dos saberes tradicionais transmitidos por nossas avós, erveiras, raizeiras benzedeiras e parteiras, debatendo o modelo biomédico. Procuramos proporcionar uma formação que esteja direcionada a qualquer pessoa interessada no tema, para que estas se tornem disseminadoras desse conhecimento. Pretendemos, com isso, promover o empoderamento feminino durante o processo de gestar e parir, fortalecendo a autonomia e a capacidade de escolha informada sobre seu processo gestacional, proporcionando o autoconhecimento em saúde que há muito foi desvalorizado pelos processos de modernização da sociedade.
Objetivo Geral: Promover rodas de conversa com finalidade educativa a respeito dos conhecimentos adquiridos no curso, a saber: ciclos femininos, gestação, parto, resguardo e maternidade/paternidade.
Justificativa: Os conhecimentos “locais” ou “tradicionais” são aqueles que se encontram em oposição, num espectro conceitual datado, a ideia de “globalização” ou “ciência moderna”. Como demonstra Ouriques, tal dicotomia reforça relações coloniais que deslegitimam os saberes populares, afirmando o papel da ciência como o de “identificar as terapias seguras e depurá-las dos aspectos culturais, das crenças e dos valores que comprometem a sua eficácia” (3). Esse projeto dificilmente se concretizará, uma vez que, como demonstram as evidências, a eficácia de tais processos terapêuticos não se dissocia de seus componentes culturais, suas crenças, valores e símbolos (6–8). Nesse projeto, ficam claros os limites de um modelo científico compreensivo amarrado a relações dicotômicas entre local versus global; ciência versus saber tradicional; etc. deixando escapar aspectos fundamentais do que se pretende conhecer (3,9–11). Diante dessa problemática, Ayora Diaz propõe o conceito de translocalidade, que atenta para a compreensão de que o mesmo movimento que a ciência procura fazer – estudar os saberes tradicionais a luz do paradigma biomédico e extrair aquilo que pode ser aplicado pela medicina – também é um movimento realizado na sua contramão, onde as detentoras do saber tradicional também buscam as contribuições da Ciência (4,5,11,12), superando a percepção anterior do saber tradicional como um aspecto da cultura congelado no tempo a ser desvelado pela ciência. A translocalidade evidencia uma relação dialógica para além de oposições dicotômicas que contempla a superação da oposição entre ciência versus saberes tradicionais e melhor dialoga com a realidade a ser trabalhada no curso. A historiadora Anayansi Brenes reconta os processos de desenvolvimento da medicina obstétrica, cujo empreendimento buscava modernizar a estrutura de saúde no Brasil, e não reconhecia a legitimidade dos saberes populares (13). Como consequência, as políticas acabaram contribuindo para relegar ao ostracismo conhecimentos que poderiam estar a serviço da população, e reduziu à seara da clandestinidade o ofício das parteiras (3,11,13–15). A inovação que a proposta traz está nos princípios norteadores da práxis a se desenvolver. Reconhecendo os processos históricos colonizadores que guetificaram a cultura brasileira ao ponto de torna-la irreconhecível ao seu próprio povo, propomos um resgate dos saberes populares e tradicionais da parteria em diálogo com a ciência, atuando na encruzilhada entre os saberes locais, as políticas públicas e a academia. O projeto prevê, ainda, a sistematização e divulgação da experiência, com objetivo de fortalecer tais práticas dialógicas. Além disso, o enfoque está voltado para mulheres em situação de vulnerabilidade social, buscando atuar com ênfase sobre uma parcela da população com dificuldade de acesso à educação e que não dispõem do privilégio de contratar profissionais da iniciativa privada. Nesse sentido, destaca-se a importância da oferta de assistência estudantil, em consonância com as deliberações institucionais no VIII Congresso Interno da Fiocruz Nesse sentido, compreendemos que o currículo do curso é composto de uma hibridização entre os conhecimentos tradicionais e os saberes técnico científicos, reconhecendo as relações de poder estruturantes que moldam nosso sistema de saúde em favor de um grupo hegemônico que reduz sua prática à visão biomédica dos processos de saúde-doença. Através dessa construção, pretende-se oferecer uma formação que seja capaz de promover o empoderamento feminino; oferecer conhecimentos com o autocuidado e a saúde; promover a autonomia em relação aos corpos; e proporcionar respaldo para trazer maior horizontalidade nas relações com os profissionais de saúde. Referências bibliográficas Ouriques LF. Medicinas Indígenas e as Políticas da Tradição: entre discursos oficiais e vozes indígenas. Rio de Janeiro - RJ: Editora Fiocruz; 2013. 202 p. 2. Lévi-Strauss C. A Eficácia Simbólica. In: Antropologia estrutural. São Paulo: Cosac Naify; 1985. p. 201–20. 3. Csordas TJ. Corpo/Significado/Cura. 1o ed. Editora UFRGS; 2008. 463 p. 4. Peirano M. A análise antropológica de rituais. In: O Dito e o Feito: Ensaios de Antropologia dos Rituais. Rio de Janeiro - RJ: Dumará Distribuidora de Publicações Ltda.; 2002. p. 19–40. 5. Latour B. Jamais Fomos Modernos - Ensaio de Antropologia Simétrica. 1o ed. Rio de Janeiro: Editora 34; 1994. 152 p. 6. Haraway DJ. A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieth Century. In: Simians, Cyborgs and Women The Reinvention of Nature. New York: Routledge; 1991. p. 291–324. 7. Diaz SIA. Translocalidad y la antropología de los procesos globales: saber y poder en Chiapas y Yucatán. J Lat Am Caribb Anthropol. 2007;12(1):134–63. 8. Davis-Floyd R. The technocratic, humanistic, and holistic paradigms of childbirth. Int J Gynecol Obstet. 2001;75(SUPPL. 1):5–23. 9. Davis-Floyd R. Daughter of time: the postmodern midwife (Part 1). Rev da Esc Enferm da USP. dezembro de 2007;41(4):705–10. 10. Davis-Floyd R. Daughter of time: the postmodern midwife (Part 2). Rev da Esc Enferm da USP. março de 2008;42(1):168–72. 11. Brenes AC. História da parturição no Brasil, século XIX. Cad Saude Publica. 1991;7(2):135–49. 12. Diniz CSG. Humanização da assistência ao parto no Brasil: os muitos sentidos de um movimento. Cien Saude Colet. 2005;10(3):627–37. 13. Grosfoguel R. A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI. Soc e Estado. 2016;31(1):25–49.
Formar educadoras perinatais para atuarem em suas comunidades, preferencialmente aquelas em situação de vulnerabilidade, de modo a promover o empoderaramento feminino em seu processo gestacional através da metodologia das rodas de gestante, inspirada na Educação Popular em Saúde e com base em conhecimentos tradicionais.